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07/12/2003 20:56
Aqui vai minha opinião pessoal sobre o filme "Nosferatu". Mais uma vez, a costumeira advetência; se vc se incomoda em ficar sabendo o final do filme, não leia o texto...

O filme Nosferatu, de F. W. Murnau (1922) é um dos grandes clássicos do terror. Não somente pelo filme em si, mas pelos mistérios que o rondam e por todas as discussões que ele gera.
Começo por algumas lendas acerca do filme. A empresa que produzia o filme era uma das mais ricas da Alemanha; entretanto, após o fracasso do mesmo, a empresa faliu. Além disso, o próprio nome “Nosferatu” é um enigma. A intenção inicial do diretor era usar o nome “Drácula”, mas os herdeiros de Bram Stoker não lhe concederam os direitos autorais sobre o mesmo. De onde então teria surgido o nome “Nosferatu”? Há uma teoria que seria um nome originado da mistura das línguas romena e grega; entretanto, não sei o que significaria (se alguém tiver uma teoria plausível, agradeço a ajuda). Por último, há toda uma atmosfera de suspense em torno do ator que faz o papel principal, Max Schreck. Ele era um desconhecido antes do filme. Levando-se em conta os poucos efeitos especiais da época, sua feiúra é de arrepiar. E, após o filme, Max Schreck literalmente desapareceu. Brincando com o mito em torno desse ator, um filme recentemente inventou uma história de que Murnau não teria contratado um ator para fazer o papel de vampiro, mas sim um vampiro para fazer o papel de ator. Não que eu acredite nisso; mas cito-o apenas para reforçar como Nosferatu mexe com o imaginário das pessoas.
A história do filme, em si, não é original; ela baseia-se na obra “Drácula”, de Bram Stoker. Um agente imobiliário é contratado para fazer a venda de um castelo na costa do Mar Báltico, cujo proprietário é o Conde Orlock, que durante o dia dome num caixão e à noite acorda para alimentar-se de sangue humano. Ao ver uma foto da mulher do corretor, o Conde fica encantado com seu “belo pescoço”, e resolve mudar-se para um castelo em frente à casa do mesmo. O resto da história não é muito difícil de imaginar...
O que esse filme “Nosferatu” representa dentro do Expressionismo (ver breve explicação sobre o movimento no post sobre o filme “O Anjo Azul”)? Primeiro, é necessário explicar por que o filme pode ser enquadrado nesse movimento. Em “Nosferatu”, a estética expressionista não é tão facilmente perceptível quanto em o anjo azul (pois os cenários daquele possuem uma aparência gótica), entretanto o jogo luz/sombra apregoado pelo movimento aparece nesse filme em profusão. Entretanto, o argumento mais forte para classificar “Nosferatu” como um filme Expressionista seria o fato do próprio vampiro ser a materialização do “grito expressionista”.
Há outras teorias interessantes, que identificam o vampiro como sendo uma representação do horror da Segunda Guerra Mundial ou do crescimento do autoritarismo no mundo. Não nego a possibilidade de que esses fatos tenham, de alguma forma, influenciado o autor; entretanto, vou me ater a uma análise do filme sob a ótica do Expressionismo.
“O grito expressionista” seria uma maneira de externar todos os nossos sentimentos reprimidos, todos os conflitos que existem dentro de nós e que tentamos de alguma forma manter sob controle. No entanto, resta uma pergunta: o vampiro seria o grito de quem? A princípio, ela seria o grito da personagem, de.... mulher do corretor de imóveis. Nosferatu representaria o lado emocional da mesma, tentando lutar contra a vida racional, pacata e rotineira que a mulher levava. É interessante notar que, desde o início, esse lado emocional atrai a Razão, representada pelo marido, com o intuito de destruí-la. Assim, se analisarmos o filme sob a ótica do interior da personagem da mulher, ela está desde o início cedendo ao vampiro; não há um marco nítido temporal ou um fato específico que deflagre o conflito razão/emoção; dentro do espaço narrativo do filme, esse conflito sempre existiu.
Outra questão que se põe: a quem será que a mulher amava realmente? Ao seu marido ou ao vampiro? Levando-se em conta a feiúra do vampiro, essa pergunta se torna ainda mais grotesca e inquietante. O que, então, a bela moça teria visto de bom num ser maligno e horrendo? Provavelmente o fato de o vampiro representar sua única possibilidade de fuga dentro daquele mundo racional, de sua vidinha organizada e sua rotina esmagadora. Nosferatu era a libertação de suas emoções, era a chave para sua liberdade dentro daquela sociedade escravizante. Por mais que isso possa parecer absurdo, não é uma opinião sem fundamento. De longe, ela sente a influência do vampiro. Nosferatu vem de navio, enquanto o marido vem à cavalo; e, enquanto espera por seu amor, é para o mar que a mulher olha. Quando ela diz “finalmente ele chegou”, fica impossível saber a quem a mulher se refere, pois tanto o vampiro quanto o homem chegam praticamente ao mesmo tempo. Por fim, em certo momento do filme, a bela jovem finge passar mal e pede que o marido vá chamar um médico, a fim de que ela possa ficar à sós e se entregar a Nosferatu.
E essa última atitude da heroína que merece ser refletida com mais calma. O que, na verdade, leva ela a se entregar ao vampiro? Será que ela realmente teria sucumbido a seu grito interior? Será que ela se apaixonou pelo vampiro? Ou ela, como uma verdadeira heroína romântica, estaria se sacrificando para livrar o mundo do mal que aquele vampiro representava? Pois, segundo dizia uma lenda, quando uma moça se entregasse ao vampiro por vontade própria, então ele seria destruído. Mas também pode ser que o intuito de “salvar a Humanidade” seja simples mauvaise-foi; ela poderia estar usando seu martírio com um pretexto para dissipar suas dúvidas e realizar sua própria vontade. Um outro fato que mercê reflexão: após se entregar ao vampiro e assim causar sua morte, a heroína também acaba por falecer. Ou seja: tentar destruir seu lado emocional, ela própria acabou destruída. Como bem observou um amigo meu, tanto “ Nosferatu” quanto “O Anjo Azul” parecem mostrar a morte como a única solução para os conflitos entre razão/emoção, mundo exterior/grito interior. Será que haveria uma outra saída? Que “Nosferatus” existem dentro de cada um de nós?
Terminando, gostaria de falar sobre alguns momentos que achei mais marcantes do filme: a “carruagem fantasmagórica” que conduz o marido até o castelo de Nosferatu; a indecisão de mulher entre abrir ou não a janela para o vampiro; Nosferatu subindo as escadas com sal sombra projetada na parede; a sombra do vampiro tocando o coração (ou o seio?) da mulher. Mas, sinceramente, acho que não poderia classificar esses momentos como “êxtases estéticos” (ver explicações sobre êxtase estético no blig “larmec”). Além disso, o filme, mesmo com toda sua atmosfera sombria, não chega a provocar medo. Em muitos momentos, cheguei a me perguntar de que maneira efeitos especiais mais modernos poderiam contribuir para transformar o filme em algo realmente assustador (nesse sentido, talvez seja interessante ver a versão de Werner Herzog). De qualquer maneira, não chega a ser uma obra que entretenha facilmente, e eu particularmente gostei mais das discussões sobre o filme do que do filme. Mesmo assim, acho que vale à pena vê-lo.




enviada por fastasma na neblina






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